Não, caro navegante. Não se trata de uma simples Entomologia, tampouco de Fazenda de Formigas.
São insetos mais complexos, capazes de bugar a "Máquina Perfeita".

Cemitério de Imortais

Capítulo primeiro – O  A b r i r   d o s   p o r t õ e  s

Você pode nunca ter percebido, nem ouvido falar sobre algo semelhante. Não se trata de uma estória criada por uma mente complexada, tampouco de uma teoria proposta por mais um descontente com a realidade. Não é misticismo. Tudo é notoriamente verdadeiro. Eles estão por toda parte. Mais perto do que a medíocre capacidade de percepção humana pode imaginar. São vidas. Milhares delas. Deveriam estar mortas, como disseram os necrotomistas. Deveriam. Não estão. Como é possível, não sei. Simplesmente descobriram a fórmula da eternidade. Não quero com isso lhe persuadir a crer no sobrenatural. Das duas uma: ou tudo isto está além da razão, ou é tão racional que não se pode entender logicamente. Uma coisa é certa: é um fato, não uma especulação. Como provar? É simples: Prazer. Sou Arimatéia. José de Arimatéia, Zelador do Cemitério de Imortais.
Qualquer semelhança entre o meu nome e a minha profissão – se é que assim posso chamar – é mera coincidência. Ironia do destino. Se bem que, para o que eu faço, o destino não é tão relevante. Literalmente, uma ironia. Enfim, tão irrelevante quanto o destino é esta discussão a meu respeito. Auto-avaliação não é o meu forte. E não crie falsas esperanças de conseguir me avaliar ou me entender. Sou fechado. Um túmulo. E olhe que disto eu entendo. Pensando bem, os meus túmulos não andam tão fechados assim. O rotineiro ranger do portão é prova disto, pois sempre traz consigo as pisadas frenéticas, muitas das quais, totalmente desacompanhadas dos bons modos, metem-se entre os sepulcros como se os conhecessem intimamente. Arrogantes! Não é o fato de estar sempre tudo muito bem iluminado que os torna auto-suficientes.
***
Sim. Sempre muito bem iluminado. Ou você esperava o velho clichê da penumbra e orvalho que engolem as vidas engolidas pelas lápides?
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 Eles precisam de mim. Eles precisam das vidas e só eu sei onde está a que procuram. Simples assim. Nessas horas, um pouco de egocentrismo não faz mal a ninguém. O que é melhor: se oferecer ou ser requisitado? Prefiro ficar sentado. Calado. Bem ao contrário das vidas que clamam das sepulturas, em busca de atenção para o que elas têm a dizer. O fazem com o silêncio das cores e o grito das lápides. 




Capítulo segundo – O d o r d e v i d a
Postado em 08 de setembro de 2010

Todo dia a mesma coisa, a mesma rotina, o mesmo círculo vicioso. Acontece que a noção de que se está em uma sucessão de acontecimentos repetitivos liga-se diretamente a sua interrupção. Mas quem irá fazê-lo? Somos sempre ocupados, atados, viciados demais, a ponto de preferirmos sempre o jeito mais fácil: o conformismo. Era assim que eu estava até sentir aquele cheiro.

Mais uma noite no Cemitério de Imortais. Tudo parecia normal. Pelo no que diz respeito à rotina do lugar em questão:

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Acostume-se. Variedade de conceitos e contradição com os até então conhecidos são comuns por aqui. Acho que já deu pra perceber.

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Nada de cruzes, anjos ou velas, muito embora o verdadeiro nome do recinto retome a religiosidade mórbida, para se cumprir o caráter hipócrita da sociedade. Flores continuavam não se fazendo necessárias, até porque ninguém é capaz de tamanho esforço, subindo o Monte da Caveira - como é chamado o local onde está situada a necrópole - apenas para tributar algo a alguém, a menos que o seja por barganha.

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O que até podia a acontecer, pois os que ali estão têm muito a oferecer, mas a cegueira da insensibilidade (vulgarmente conhecida como racionalidade) conseguiu enxergar, na morte dos que ainda vivem, uma prerrogativa para a execução do maior passa-tempo humano: O Egocentrismo.

***


Nada de natural, salvo o cheiro de antiguidade.

De repente, o ranger. Estranhei. Desta vez, não estava acompanhado das pisadas irritantes. Traziam outras bem diferentes. Suaves, mas ainda assim alvoroçadas pela expectativa avassaladora de ao menos transcorrer o dedos pelas lápides e sujá-los de poeira. Como um gesto de bem vindo e aceitação, tudo no ambiente mudou: aumentou-se o clamor nos sepulcros. Um novo odor tomara de conta do lugar. O cheiro de velho sucumbira-se com a aproximação da adoradora de imortais. A combinação perfeita do efeito entorpecente daquele perfume com a hipnose instantânea do olhar castanho-escuro paralisou-me. O barulho ensurdecedor dos que deveriam estar calados com suas insensibilidades foi silenciado com o “Boa Noite” desejado a todos os funcionários, inclusive a mim, mas que mais parecia saudar aos imortais um por um.

– Boa noite! Em que posso ser útil? – respondeu Marta com o seu característico ar de imunidade.

– Permitir-me conhecer os imortais é um bom começo. – falou esperançosa.

– Como? – retrucou, quase que na forma de interrupção. O riso irônico no canto da boca, quase imperceptível pela opacidade do seu buço, provava a plena compreensão do que fora dito. Ainda extasiado intervi. Um “siga-me” foi suficiente.

[...]



J.S.

2 comentários:

  1. Parabéns. Vai virar um Shakespeare do século XXI... hehe

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  2. Parabéns. QueridO promessa cumprida já li os dois capítulos e AMEIIII Espero que vC possa escrever mais e mais pois terei o prazer em ler todos. ;*

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